Discípulos Missionários a partir do Evangelho de João

dom_vicente_costa_jundiai-300x178“Permanecei no meu amor para produzir muitos frutos” (cf. Jo 15,9-16)

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Por ocasião da memória de São Jerônimo (347-420), grande estudioso da Bíblia Sagrada, que se celebra no calendário litúrgico no dia 30 de setembro, o mês de setembro é tradicionalmente dedicado à Palavra de Deus. A iniciativa de celebrar o Mês de Bíblia no decorrer do mês de setembro surgiu em 1971, por ocasião dos 50 anos da Arquidiocese de Belo Horizonte (MG), sendo posteriormente assumido como um Projeto de Evangelização, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Cada ano é escolhido, para o aprofundamento, um tema ou um livro da Bíblia Sagrada.

Nos últimos três anos o Mês da Bíblia foi inspirado no Evangelho do ano litúrgico correspondente (Mateus no Ano A, Marcos no Ano B e Lucas no Ano C). O enfoque destes últimos três anos foi o tema central do Documento de Aparecida (2007): “Discípulos Missionários de Jesus Cristo”. No ano litúrgico, o Evangelho de João é lido todos os anos, principalmente desde as últimas semanas da Quaresma até o final do tempo pascal, indicando sua importância na celebração litúrgica e catequética.

Queridas irmãs e irmãos diocesanos: mesmo que neste ano litúrgico de 2015, e de acordo com o Projeto das Santas Missões Populares, sejamos convidados a ler, refletir e vivenciar o Evangelho de Marcos, queremos estar em comunhão com a Igreja do Brasil e refletir sobre o tema do Mês da Bíblia deste ano: “Discípulos Missionários a partir do Evangelho de João”.

O Evangelho de João foi escrito num momento crucial dos inícios da Igreja. A geração das testemunhas oculares que tinham convivido com Jesus estava desaparecendo e era preciso crer em Jesus mesmo sem tê-lo visto (cf. o episódio de Jesus Ressuscitado e Tomé: Jo 20,24-29). Além disso, a comunidade onde nasceu o Evangelho de João enfrentava muitas lutas e dificuldades, com os conflitos vividos com as autoridades judaicas que não aceitavam a divindade de Jesus, e também com alguns membros da própria comunidade que entendiam de forma diferente a mensagem de Jesus. O que fazer? A única solução era voltar-se para o próprio Jesus, lembrar suas palavras, acolhê-lo como o Filho de Deus feito carne (cf. Jo1,14), crer nos seus gestos de misericórdia e, sobretudo, amá-lo de verdade, a fim de “permanecer no seu amor para produzir muitos frutos” (cf. Jo 15,9-16).

Por isso, a Igreja sempre reconheceu no Evangelho de João um texto de valor excepcional e de beleza extraordinária. Ele foi escrito por alguém que não apenas conhecia bem Jesus, os apóstolos e a cultura de Israel, mas que também amava Jesus intensamente. Para ele, o amor a Jesus é a alma do discipulado, o ponto fundamental do seguimento a Jesus, a ponto de ele apresentar a si mesmo como “o discípulo amado” (cf. Jo 1,35-42; 13,23-25; 18,15; 20,2-10).

O Evangelho de João pode ser estruturado de várias maneiras. Em linhas gerais, podemos dividi-lo da seguinte maneira: há um “Prólogo”, uma introdução, que contém um resumo de todos os temas que serão desenvolvidos ao longo do Evangelho (Jo 1,1-18). Depois o “Livro dos Sinais” (cf. Jo 1,19 até 12,50), que apresenta sete (número que indica perfeição) sinais extraordinários, indicativos de que chegou, finalmente, o Messias esperado, o Filho de Deus na pessoa de Jesus (1º sinal − as bodas de Caná: 2,1-12; 2º sinal – a cura do filho de um funcionário real: 4,46-54; 3º sinal – a cura de um paralítico: 5,1-9; 4º sinal – a multiplicação dos pães: 6,1-15; 5º sinal – Jesus caminha sobre as águas: 6,16-21; 6º sinal – a cura de um cego de nascença: 9,1-41; 7º sinal – a ressurreição de Lázaro: 11,1-44).

Já a segunda parte do Evangelho, o “Livro da Glória ou da Glorificação” (cf. Jo 13,1 até 20,31) mostra que a hora de Jesus já chegou, narrando a Última Ceia, com o discurso de despedida; a Paixão e a Morte de Jesus e as cenas da Ressurreição. O final do Evangelho de João é constituído por um “Epílogo” (Capítulo 21), narrando uma nova manifestação de Jesus aos discípulos, e a conclusão.

A linguagem do Evangelho de João se destaca por sua simplicidade. Ela se concentra em termos essenciais, por exemplo: “luz”; “vida”; “porta”; “água”, “pão”, mas que possibilitam um encontro mais profundo com Jesus. Quando Jesus faz o sinal da multiplicação dos pães (Jo 6,1-15), ele se apresenta: “Eu sou o pão da vida” (Jo 6,48). Quando ressuscita Lázaro, ele afirma: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que tenha morrido, viverá” (Jo 11,25).

Por fim, o Evangelho de João se destaca por ser o Evangelho que prega a vivência do amor até as últimas consequências: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13,1c). O único mandamento que encontramos nesse Evangelho é o mandamento do amor: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). A única medida do nosso amor é o amor de Cristo: amar até dar a vida! Principalmente na segunda parte do Evangelho, Jesus mostra-nos o verdadeiro sentido do amor: assumindo a condição de servo que lava os pés dos seus discípulos (cf. Jo 13,1-11), Jesus assume a condição de servo, sendo o Bom Pastor que dá a vida pelas suas ovelhas (cf. Jo 10,11-18). O projeto de Jesus é muito exigente! Significa permanecer no amor de Jesus, amando os outros com este mesmo amor que vem d’Ele e nos leva até Ele!

Queridas irmãs e irmãos diocesanos: nossa querida e amada Igreja de Jundiaí vive um momento da graça do Senhor: o Projeto das Santas Missões Populares. É certamente um Projeto do amor de Deus! Nada se faz senão por amor a Deus e aos irmãos. O Evangelho de João convida-nos a refazer a nossa experiência de “discípulos amados” de Jesus Cristo, dar continuidade ao nosso seguimento de Jesus, sendo seus missionários ardorosos. O amor é o caminho! Irmãs e irmãos: Jesus nos assegura: “Tende coragem! Eu venci o mundo!” (Jo 16,33c).

E a todos abençoo no amor de Jesus “que é o Cristo, o Filho de Deus, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (cf. Jo 20,31b).

Dom Vicente Costa