Ano da paz – “somos da paz”

“A paz é fruto da justiça” (cf. Is 32,17)

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Aprovado por unanimidade na 52ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), ocorrida de 30 de abril a 9 de maio de 2014, o Ano da Paz teve início no Advento do ano passado, em 30 de novembro de 2014, e se estenderá até o Natal deste ano. Tem como lema: “Somos da Paz”!

Para o Ano da Paz a CNBB lançou um Texto-Base, contendo três partes principais. Na primeira parte (“A paz agredida”), constatam-se várias manifestações da violência que ameaçam e destroem a paz; na segunda parte (“O Evangelho da paz [Ef 2,17]”), é apresentada a visão bíblica da paz como também pronunciamentos recentes sobre este tema; já na terceira parte (“Somos da paz”), são oferecidas sugestões práticas em busca da construção da verdadeira paz. Deste modo, a Igreja, a partir de sua tarefa missionária de anunciar Jesus Cristo e seu Reino, empenha-se e busca sensibilizar os vários segmentos da sociedade e os seus fiéis para enfrentar a violência, que atinge de modo arrasador a vida e a dignidade da pessoa humana.

Infelizmente, vivemos numa sociedade muito violenta que não nos possibilita sermos plenamente livres e felizes. A violência tira a alegria de viver, causando insegurança e medo. De acordo com o “Mapa da Violência – 2014”, entre os anos 1980 e 2012, morreram no país 1.202.245 pessoas vítimas de homicídio, atingindo principalmente as camadas mais pobres, os negros e os jovens. A violência se faz presente em todos os lugares: nas escolas, nas ruas, no trânsito, nos locais de trabalho, em nossas comunidades, nos estádios de futebol e, abominavelmente, no sacrossanto território da família, principalmente pela agressividade contra as mulheres e as crianças. Alguns acham que a violência se vence com violência. Nessa visão, o outro, muitas vezes, torna-se um potencial inimigo do qual devo me defender ou combater. Além disto, a violência também se manifesta na falta de ética na gestão da administração pública, na corrupção e na impunidade.

Os cristãos e as pessoas de boa vontade são da paz, contra toda forma de violência. Como discípulos missionários, seguimos Aquele que “é a nossa paz” (Ef 2,14) e cujo nascimento na nossa terra foi anunciado com uma exclamação e desejo de paz: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e na terra, paz aos que são do seu agrado” (Lc 2,14). Jesus Cristo é o “Príncipe da Paz” anunciado pelo profeta Isaías (Is9,5), fazendo da paz o seu verdadeiro legado a toda a humanidade: “Deixo-vos a paz. Dou-vos a minha paz” (Jo 14,27). A paz é a primeira palavra que Cristo pronuncia ao romper o silêncio da morte e o abismo do vazio do nada sem Deus, quando ressuscitado, saúda os seus apóstolos: “A paz esteja convoco” (Jo 20,19). Esta é a paz que vem de Deus. É a novidade do “shalom” de Deus; não se trata de uma simples paz, mas da paz bíblica, paz da presença constante de Deus em nossa vida, destruição do pecado, a verdadeira raiz de toda violência; paz que é expressão da vida nova e plena nascida da ilimitada misericórdia do nosso Deus. Como cristãos que caminhamos na estrada de Jesus, cremos que a paz vem da lógica do serviço ao invés do domínio (cf. Lc 22,24-27), do perdão e da reconciliação (cf. Mt 18,21-35), de responder à violência com o amor (cf. Mt 5,39). De fato, “felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9).

Sim, queridas irmãs e irmãos diocesanos: o caminho da paz é possível. Precisamos acreditar que a paz, muito mais que ausência de guerra, é fruto da justiça (cf. Is 32,17). São Tiago afirma: “O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz” (Tg 3,18). Quanto mais igualitária e solidária for a sociedade, quanto mais justa e aberta ela for à inclusão social, quanto mais respeito houver pela diversidade do outro, menos violência teremos. O Papa Francisco nos diz: “É hora de saber como projetar, numa cultura que privilegie o diálogo como forma de encontro, a busca de consensos e de acordos, mas sem a separá-la da preocupação por uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões” (Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium” [A alegria do Evangelho] sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual, n. 239).

Portanto, a cultura começa pela vida cotidiana de cada um de nós. Exige uma autêntica conversão pessoal. Além de ser fruto de uma aliança ampla e de um conjunto dos esforços humanos em vista do cuidado pelo outro e do exercício justo e ético da dimensão política de nossa cidadania, o caminho para a paz verdadeira depende, muitas vezes, de pequenos gestos que todos nós podemos e devemos fazer, como por exemplo: atitudes de compreensão, acolhimento e perdão em nosso lar; cumprimentar e ser amigo dos vizinhos; não cair na lógica perversa da violência, evitando usar palavras duras e ofensivas; usar as “armas da paz”: a oração, o perdão, o sorriso aberto, o aperto de mão, a proximidade e a sensibilidade com quem sofre.

Em nossa Diocese, dentro do Ano da Paz, o dia 26 de setembro foi dedicado a realziação do evento denominado “50 Pontos da Paz”, promovida pela Cáritas Diocesana e pelo Fórum das Pastorais Sociais (cf. páginas 6 e 7). Esta atividade integrou-se a programação de preparação ao Jubileu de Ouro, lembrando os 50 anos da criação da nossa Diocese, que celebraremos no dia 6 de janeiro de 2017.

Queridas irmãs e irmãos diocesanos: agradeço a suas famílias e comunidades  pela participação no evento deste esforço pela paz, pois todos “somos da paz”!

“Que Cristo, o Príncipe da Paz, nos ajude na construção de novos caminhos, pois a boa vivência da fé implica o compromisso cotidiano com a paz. Nossa Senhora geradora do Príncipe da Paz nos ajude a sermos arautos e geradores da paz” (Texto-Base da CNBB: Somos da Paz, n. 25).

E a todos abençoo: “A paz do Senhor Jesus Cristo esteja sempre convosco”!

Dom Vicente Costa