Optar pelo egoísmo é ir contra o plano de Deus

Reflexão de Dom Alberto Taveira Correa, arcebispo metropolitano de Belém do Pará.

domDeus entregou o mundo a todos os seres humanos, confiando-lhes a responsabilidade de cuidar com ternura e carinho uns dos outros e da criação. A lei de Deus é a vida da própria Santíssima Trindade, onde tudo é doação e entrega recíproca. E Deus pensou o mundo como espaço de amor recíproco. Toda a natureza e, mais ainda, as pessoas humanas, foram feitas para o serviço e para a saída de si mesmas. Recordei-me de uma canção que expressa a lei da vida inscrita pelo Criador, oportuna para novas e acertadas escolhas: “Faze de mim como folha ao vento que se deixa sempre transportar, mesmo se não sabe, não sabe nunca onde pousará. Faze de mim como águas do mar que se deixam sempre ondejar sem nunca saber, sem saber quando retornarão. Porque, ó Deus, o vento e o mar, ou mesmo o sol, é teu amor! Porque ó Deus, partir ou voltar, sofrer ou cantar, é sempre amor. Faze de mim como neve ao sol, que se deixa acariciar sem temor, sabendo que depois, depois ao sol se dissolverá. Porque ó Deus a tua vontade é sempre amor, és sempre tu” (A tua Vontade – Heliomar Ferreira – Gen Festa).

De fato, optar pelo egoísmo é ir contra o plano de Deus. Buscar apenas o próprio interesse bloqueia a realização e a felicidade de todos. Só será feliz quem aprender a sair para fazer o bem e espalhar o bem. Está em jogo nada menos do que o sentido da vida das pessoas.

Sabemos que tais conceitos nadam contra a correnteza do que nos acostumamos a ouvir, assistir e falar. Em geral, tudo é orientado para a afirmação dos próprios gostos e interesses, com a qual somos introduzidos na concorrência tantas vezes desleal, mesmo que seja necessário pisar nos outros. Uma das consequências é a desvalorização dos mais pobres e excluídos. Regiões pobres do mundo são consideradas massa sobrante, hoje deixada ao seu esgotamento, pela miséria, as doenças e consequentes epidemias de nosso século. O Evangelho nos propõe uma estrada diferente, conduzindo-nos a olhar para quem se encontra nas margens dos mares da vida.

Há muitas lições diferentes, que percorrem toda a história da Igreja, cuja fonte é o Evangelho. Dentre tantos encontros de Jesus com pessoas de todas as categorias sociais, recordamos a oferta da pobre viúva, diante do cofre do templo, chamado gazofilácio, que se resumia a duas moedas, tão limitadas quanto ao seu valor e tão importantes para sua sustentação (Cf. Mc 12, 38-44), texto preparado pela edificante narrativa da viúva de Sarepta, encontrada pelo profeta Elias (Cf. 1Rs 17, 10-16). Nossa viúva do Evangelho deu o tudo que possuía, enquanto ao seu lado outras pessoas  traziam o que sobrava. A “massa sobrante” foi a única que deu tudo!

Qual é o tamanho do tudo? Depende do tamanho do coração! Zaqueu era rico, com fama de desonesto, dividiu a metade de seus bens e restituiu quatro vezes mais o que havia roubado.  Nas primeiras comunidades cristãs, o sinal da conversão era a partilha dos bens (Cf. At 4, 32-35). São Paulo, quando organizou uma coleta em favor dos fiéis de Jerusalém, suscitou a generosidade do tamanho do tudo das comunidades dos primórdios da Igreja. Na história da Igreja, dentre outros aparece São Francisco de Assis, cujo tudo foi dado quando abandonou o futuro brilhante de comerciante bem sucedido, para sair pelas ruas clamando que o amor não era amado, desposando a pobreza, indo ao encontro dos leprosos e outras pessoas marginalizadas. Impressionante é a quantidade de jovens, de lá para cá, que são misteriosamente chamados a ir atrás do nada que ele representa, para deixar tudo e decidir-se a contribuir na contínua reconstrução da Igreja. E esta obra comporta participação de todos, sem exceção.

Chegando à nossa vida cotidiana, vale perguntar a respeito da meta escolhida e o rumo da caminhada. Duas moedas necessárias à vida podem significar o chamado a doar a própria vida. Há pessoas convocadas por Deus a fazê-lo no Sacramento do Matrimônio, que não vem a ser entendido como conquista de algum tipo ou título de propriedade. Quem casa se doa inteiramente e permite que o cônjuge entre em sua vida vinte quatro horas por dia, até que a morte separe os dois. Os elos da corrente de amor simbolizados pelas alianças matrimoniais expressam a entrega de vida, dar a vida, perder a vida! Duas moedas da busca da felicidade entregues, perdidos para sempre! E isso é felicidade, realização.

Outras pessoas são chamadas a oferecer a Deus o dom de sua capacidade de amar e sua pretensa liberdade, para entregar duas moedas essenciais ao Senhor. A pais que têm dificuldades para entender o chamado de Deus a filhos e filhas fica o alerta! Se vocês ensinaram a amar e servir, se a casa de família foi espaço de alegria sincera, Deus se sente à vontade para chamar! E ele chama ainda hoje, inclusive de famílias com filho único. Quem for coerente com a vida cristã, saiba que vai perder para Deus, para a Igreja e para mundo! E isso é felicidade.

No entanto, também nas pequenas escolhas diárias se revela a disposição para doar tudo. O tamanho do tudo que cada um pode dar pode ser das dimensões de um diálogo, ou uma visita amiga, quem sabe a busca da reconciliação, quando se quebra o relacionamento. Duas moedas necessárias para a vida podem ser nosso esforço pessoal por interessar-nos pelos que mais sofrem e nada têm!

Há um espaço especial para o aprendizado da lei da vida, onde os pequenos dons e posses são postos à disposição da Comunidade Paroquial, ou, quem sabe, a grandeza do dízimo fiel ou a comunhão de bens são praticados, e suscitam uma grande corrente de generosidade. Nas Paróquias, escolas de comunhão, as pessoas entrem com o que são e o que têm. Sejam elas portas de acolhida para todos.

Nossa Arquidiocese se prepara agora para o XVII Congresso Eucarístico Nacional, a realizar-se de 15 a 21 de agosto de 2016. Nós o realizaremos com a participação e a colaboração de todos. Dentre outros padroeiros e padroeiras, entre nós tem sido lembrada a pobre viúva, cujo nome não conhecemos, mas sabemos que junto de Deus reza para que muitos óbulos pequenos ou grandes se tornem sinais de generosidade para todas as pessoas que acompanham a vida de nossa Igreja, e assim se realize este grande evento de fé.

Fonte: zenit.org