Pe. Norberto fala sobre sua missão nas aldeias indígenas na Raposa Serra do Sol

“Temos muito o que aprender com os povos indígenas”

 pe-norberto_missao_set-2015-5“Tive a alegria de participar de uma equipe numa missão na região da Raposa Serra do Sol onde existem 75 aldeias indígenas. Formamos 14 equipes e cada uma deveria visitar três ou quatro centros, para preparar a festa de 100 anos de evangelização dos povos indígenas, celebrada nos dias 10 a 14 de setembro de 2015. Realizamos a missão entre os dias 24 e 29 de agosto. A equipe foi formada por um padre e mais oito membros, dois adultos e seis jovens todos indígenas.

Raposa Serra do Sol é uma Terra Indígena situada no nordeste de Roraima na fronteira com a Venezuela, destinada à posse permanente das etnias ingaricós, macuxis, patamonas, taurepangues e wapixanas.

A área de 1.743.089 hectares foi homologada por decreto da Presidência da Republica, em 15 de abril de 2005. Mais da metade da área é constituída por vegetação de cerrado, denominada de “lavrado”. A porção montanhosa culmina com o monte Roraima, em cujo topo se encontra a tríplice fronteira entre Brasil, Guiana e Venezuela.

Foi uma grande surpresa, uma grande alegria, uma experiência concreta de vida em comunidade. Em todas as aldeias, a recepção era calorosa, alegre e festiva. Jovens e adolescentes vestidos com características indígenas (pinturas, enfeites com penas), dançando e cantando, primeiramente em macuxi e depois em português. Trataram com muito carinho as equipes missionárias e serviam o melhor que podiam. As mesas eram comunitárias e muito fartas. Nas reuniões os líderes da comunidade: pajé, tuxaua, capataz, vaqueiro, catequista e professor explanavam as responsabilidades de suas funções e descreviam um pouco de sua história, suas lutas e vitórias. Todos confirmavam em seus relatos as décadas de sofrimentos, humilhações, perseguições e assassinatos, que passavam no tempo das invasões de fazendeiros e garimpeiros em suas terras. Esperavam em seguida, com muita atenção, a palavra da equipe missionária e, principalmente, do padre.

As atividades eram muitas, pois a permanência em cada aldeia era curta. Além das palestras tinham sempre batizados, casamentos, confissões e primeiras comunhões. Tudo num clima de alegria, fraternidade. Era uma festa em toda aldeia. Todos unidos na oração, na escuta da palavra de Deus e nas refeições, ao estilo dos primeiros cristãos.

De uma aldeia para outra tínhamos que fazer uma longa caminhada, mais ou menos 20 km, subindo as montanhas em meio a muitas pedras, carregando mochila e material litúrgico. O trajeto demorava de quatro a cinco horas, debaixo de um sol esturricante. Além da força de Deus, o que animava a equipe era a consciência que lá adiante tinha um povo, uma outra aldeia com irmãos esperando ansiosamente a nossa chegada. Assim que chegávamos era uma outra recepção calorosa, nos mesmos moldes das primeiras, com alguns detalhes particulares de cada grupo.

De um modo geral deu para concluir que os povos indígenas, bem evangelizados, são pessoas tranquilas, pacíficas, com objetivos muito claros, privilegiando primeiramente a comunidade e, em seguida, a família. Hoje são livres, têm famílias numerosas (média de seis ou sete filhos), as crianças brincavam livremente, as mães são tranquilas.

Reúnem-se todas os dias as 6 horas para a oração da manhã. Todos os domingos celebram a Palavra. O missionário consegue visitar somente uma ou duas vezes ao ano, devido a dificuldade de chegar às comunidades e o grande número de aldeias.

Temos muito o que aprender com os povos indígenas, em sua tranquilidade, paz e liberdade em todos os sentidos. Para mim foi uma experiência marcante. Fui para ensinar e aprendi muito mais do que ensinei. Bendigo a Deus por aquela semana. Será inesquecível”.

Pe. Norberto Savietto pertence ao clero da Diocese de Jundiaí e atua em Roraima pelo Projeto Missionário Sul 1 – Norte 1

Fonte: cnbbsul1.org.br