Casa comum, nossa responsabilidade

dvc_palavra_do_pastorLema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24).

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

A Quaresma é um tempo forte de conversão, de mudança interior, de graça e salvação, pois estaremos a nos preparar para viver, de maneira intensa, livre e amorosa, o momento mais importante do ano litúrgico e da história da salvação: a Páscoa do Senhor Jesus. Portanto, a espiritualidade quaresmal é marcada por amor e gestos concretos que trazem por si mesmos tanto uma natureza pessoal (cf. Mt 6,1-18: a esmola, a oração e jejum) como também comunitária. Essa dimensão comunitária da Quaresma é vivenciada e assumida pela Campanha da Fraternidade, que a cada ano destaca uma situação da realidade social que precisa ser analisada e mudada.

Ao se definir o tema deste ano, pela quarta vez a Campanha da Fraternidade é ecumênica, isto é, uma ação conjunta das Igrejas Cristãs (as outras Campanhas Ecumênicas foram realizadas nos anos 2000, 2005 e 2010). Mas por que ecumênica? Porque a centralidade da fé em Jesus Cristo nos anima e pede “que todos sejam um” (Jo 17,21). Deste modo, os cristãos e cristãs que acreditam na Boa Nova de Jesus Cristo têm a responsabilidade comum de construir uma “Casa Comum” justa, sustentável e habitável para todos os seres vivos. Integram, pois, a Campanha da Fraternidade Ecumênica deste ano: a Igreja Católica Apostólica Romana, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, a Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, a Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia, o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular (CESEEP), a Visão Mundial e a Aliança de Batistas do Brasil. Outra novidade é que a 4ª Campanha da Fraternidade Ecumênica é internacional, porque a Misereor, uma organização dos bispos católicos alemães para a cooperação e o desenvolvimento na Ásia, na África e na América Latina também faz parte da organização deste “mutirão de evangelização” quaresmal a serviço da Vida.

Queridas irmãs e irmãos diocesanos: o tema escolhido para a reflexão da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2016 é: “Casa comum, nossa responsabilidade”, e o lema: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). A proposta está em sintonia com a última Carta Encíclica do Papa Francisco, Laudato Si’ (“Sobre o cuidado da casa comum”) lançada no ano passado. Já o objetivo geral da Campanha visa “assegurar o direito ao saneamento básico para todas as pessoas e empenharmo-nos, à luz da fé, por políticas públicas e atitudes responsáveis que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa Comum” (Texto-Base Campanha Fraternidade 2016).

A base dessas reflexões é o livro de Amós, um livro profético do Antigo Testamento da Sagrada Escritura. O profeta Amós viveu no reinado de Jeroboão II (781-753 a.C.), período de grande avanço econômico e prosperidade para o rei e os poderosos, mas, ao mesmo tempo, período marcado pela exploração dos camponeses pela cobrança de altos impostos e taxas. Assim, Deus suscitou um vaqueiro e cultivador de sicômoros (figos) de Técua (cf. Am 1,1; 7,14), chamado Amós, que em seu profetismo denunciou as consequências da exploração social do povo (cf. Am 2,6-8) e a utilização da fé em Deus pela religião oficial (cf. Am 5,21-27).
Algo importante a destacar na mensagem do profeta Amós é a importância da água, que sempre foi um bem precioso na Palestina, já que naquela terra os índices de chuva são muito baixos. Por isso, a água é fonte de vida e dádiva de Deus para com o seu povo e precisa ser tratada com muito cuidado. Aliás, o cuidado da criação é uma responsabilidade dada por Deus ao ser humano, tema este que perpassa toda a Bíblia: “O Senhor Deus tomou o homem e o colocou no jardim do Éden, para o cultivar e guardar” (Gn2,15). De fato, o Éden era um lugar de muita água e fertilidade (cf. Gn 2,10-14).

A Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 chama nossa atenção para a questão do saneamento básico. A Organização Mundial de Saúde define o saneamento básico como o controle de todos os fatores do meio físico do ser humano que exercem ou podem exercer efeitos nocivos sobre o seu bem-estar físico, mental ou social. No Brasil, o saneamento básico é um direito assegurado pela Constituição Federal e definido pela Lei n. 11.445/2007 como o conjunto de serviços, infraestruturas e instalações operacionais de abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana, drenagem urbana, manejos de resíduos sólidos e de águas pluviais. Contudo, em nosso país, a situação é precária. Para se ter uma ideia, 82% da população brasileira têm acesso à água tratada e mais de 100 milhões de pessoas são privados da coleta de esgoto: isso pode acarretar doenças graves como cólera, dengue, zika vírus, hepatite, febre tifoide, infecções intestinais, entre tantas.

A Igreja, como o profeta Amós, recebe o mandato do Senhor de anunciar suas maravilhas e denunciar as injustiças que impedem a construção do Reino. Por isso, a Diocese de Jundiaí, em consonância com as Igrejas que integram o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), quer formar seu povo, estimular o conhecimento da realidade local em relação aos serviços de saneamento básico, incentivar o consumo responsável dos dons da natureza, principalmente da água, apoiar e auxiliar os municípios para que elaborem e executem o seu Plano de Saneamento Básico.

Queridas irmãs e irmãos diocesanos: muitas ações simples e eficazes podem ser feitas na sua casa, no seu bairro e na sua cidade em benefício do bem comum. Que esta Campanha fortaleça a nossa fé comum em Jesus Cristo, Doador da Plena Vida, e confirme nossa responsabilidade para com a Casa Comum, onde “o direito possa brotar como fonte e a justiça correr qual riacho que não seca” (cf. Am 5,24).

A todos abençoo.

Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

Fonte: dj.org.br