As obras de misericórdia corporais

“Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36)

FESTA_PADROEIRA_DOMVICENTE-89-SmallPrezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Neste Ano Santo da Misericórdia que estamos vivendo, o Papa Francisco lembra-nos de que uma das maneiras de sermos misericordiosos uns com os outros é viver as obras de misericórdia corporais e espirituais: “É meu vivo desejo que o povo cristão reflita durante o Jubileu sobre as obras de misericórdia corporal e espiritual. Será uma maneira de despertar a nossa consciência, muitas vezes adormecida diante do drama da pobreza e para entrar cada vez mais no coração do Evangelho, onde os pobres são os privilegiados da misericórdia divina. A pregação de Jesus nos apresenta estas obras de misericórdia, para que possamos entender se vivemos ou não como seus discípulos” (Misericordiae Vultus [“O rosto da misericórdia”]. Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, n. 15b).

Nem todos conhecem as obras de misericórdia corporais e espirituais. Elas “são as ações caritativas pelas quais socorremos o próximo nas suas necessidades corporais e espirituais” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2447). Ter misericórdia não é ter pena de alguém, mas é ser compassivo e solidário com as necessidades do outro; é enxergar o próprio Cristo presente nos mais pequeninos e excluídos. Como diz o Papa Francisco: a carne de Jesus Cristo “torna-se de novo visível como corpo martirizado, chagado, flagelado, desnutrido, em fuga … a fim de ser reconhecido, tocado e assistido cuidadosamente por nós. Não esqueçamos as palavras de São João da Cruz: ‘No entardecer desta vida, seremos julgados pelo amor’” (n. 15c).

Queridas irmãs e queridos irmãos diocesanos: para que possamos entender e assumir estas obras de misericórdia em nossa vida, pensei em aprofundar o sentido de cada uma a partir da Palavra de Deus (Antigo e Novo Testamento) e alguns exemplos de sua aplicação em nossa vida. Nesta edição do Jornal O Verbo, abordaremos as sete obras de misericórdia corporais. Já na próxima edição, refletiremos sobre as sete obras de misericórdia espirituais à luz da Páscoa do Senhor Jesus.

Cada uma das obras de misericórdia corporais é remédio imediato para uma necessidade do próximo. As primeiras seis obras são fundamentadas nas palavras de Jesus Cristo sobre o julgamento das nações (Mt25,31-46). Já a última obra de misericórdia corporal (“sepultar os mortos”) é consequência natural de afeto pelos nossos defuntos e a necessidade de enterrar seus corpos.

1. “Dar comida aos famintos”. O verdadeiro jejum que Deus aceita é “repartir a comida com quem tem fome” (cf. Is 58,7a). “Eu estava com fome, e me destes de comer” (Mt 25,35a). Concretamente: além da ajuda imediata que sacia quem sente o desespero da fome (distribuição de cestas básicas, “sopões” servidos nas madrugadas de frio…), é preciso enfrentar as causas sociais da fome: o acesso dos bens da terra a poucos, a distribuição injusta da terra, o desrespeito com o meio ambiente…

2. “Dar de beber a quem tem sede”. O lema da Campanha da Fraternidade Ecumênica 2016 é: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24). “Estava com sede, e me destes de beber” (Mt 25,35b). Concretamente: quantos sofrem o flagelo da seca! Quantos não têm o acesso à água potável e ao saneamento básico! Quantos têm “sede de justiça” (Mt 5,6), isto é, a sede da dignidade e da solidariedade!

3. “Vestir os nus”. O jejum que agrada a Deus é: “Dá… da tua roupa aos que estão nus” (Tb 4,16a). “Estava nu e me vestistes” (Mt 25,36a). Concretamente: quantos não se aquecem do frio por causa da falta de agasalho! Quantos pecam perdendo a sua dignidade humana, tornando-se desnudados diante do Deus Criador, Doador da Vida (cf. Gn 3,7).

4. “Acolher o estrangeiro”. Abraão recebe com grande hospitalidade na sua tenda, em Mambré, os três peregrinos (cf. Gn 18,1-8). “Eu era forasteiro, e me recebestes em casa” (Mt 25,36c). Concretamente: qual a nossa reação diante dos pedintes e moradores de nossas ruas? Como enfrentarmos o desafio cada vez mais crescente dos migrantes sem lar, sem trabalho e sem identidade? Muitos não têm uma moradia digna e isto exige uma adequada política habitacional.

5. “Assistir os doentes”. “Não hesites em visitar os doentes: assim hás de ser confirmado na estima de todos” (Eclo 7,39). “(Eu era) doente, e cuidastes de mim” (Mt 25,36b). Concretamente: esta obra de misericórdia começa na família, quando se lida com doenças prolongadas e, às vezes, irreversíveis. Quantos enfermos se encontram em hospitais, casas de recuperação, asilos… É preciso reforçar a Pastoral da Saúde. O problema da saúde pública é crônico e alarmante.

6. “Visitar os presos”. “Retira-me da prisão, para que eu celebre teu nome” (Sl 142[141],8a). “(Eu estava) na prisão, e fostes visitar-me” (Mt 25,36c). Concretamente: nossos presídios são superlotados… geram muita revolta e rebelião. Esta obra de misericórdia se estende também às famílias dos presidiários. Como vai a Pastoral Carcerária em nossa Diocese?

7. “Sepultar os mortos”. Tobias “recolhia os corpos às escondidas e os sepultava” (Tb 1,18c). Após a sua morte, Jesus recebe uma digna sepultura num “túmulo novo” (Mt 27,60), de onde ressuscita, vencedor da morte e do pecado. O Senhor Jesus afirma: “Vem a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão minha voz e sairão” (cf. Jo 5,28b-29a). Concretamente: como é salutar participar de velórios e consolar a dor dos que perdem um ente querido, principalmente daqueles que são esquecidos no momento de sua morte!

Queridas irmãs e queridos irmãos diocesanos: as sete obras de misericórdia corporais manifestam o amor preferencial que devemos ter para com todos aqueles que sofrem. Querer não ajudá-los implica talvez ouvir Jesus que um dia nos dirá: “Foi a mim que o deixastes de fazer!” (Mt 25,45b).

Que Maria, Mãe da Misericórdia, interceda por nós. E a todos abençoo.

Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

Fonte: dj.org.br