As obras de misericórdia espirituais

“Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36)

Prezados irmãos e irmãs da Igreja de Deus que se faz presente na Diocese de Jundiaí:

Neste Ano Santo da Misericórdia, a Páscoa do Senhor se reveste de um sentido todo especial. O Papa Francisco, ao convocar a Igreja de Deus para celebrar o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, afirmou: “O perdão de Deus para os nossos pecados não conhece limites. Na morte e ressurreição de Jesus Cristo, Deus torna evidente este seu amor que chega ao ponto de destruir o pecado dos homens” (Misericordiae Vultus [“O rosto da misericórdia”] − Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, n. 22a). Viver a Páscoa do Senhor é experimentar o perdão infinito de Deus, que não se cansa de oferecer o seu perdão “de maneira sempre nova e inesperada” (n. 22a). Viver a Páscoa do Senhor é oferecer também a misericórdia de Deus aos outros, tornando-se uma verdadeira testemunha de sua misericórdia, principalmente aos que mais sofrem. O Papa Francisco indicou as sete obras de misericórdia corporais e as sete obras de misericórdia espirituais como caminho concreto da vivência da misericórdia divina em nossa vida (cf. n. 15b). Assim podemos morrer para o pecado do egoísmo, da omissão e da indolência, para com Cristo ressuscitarmos para uma vida plena, onde haja paz e justiça para todos.

Queridas irmãs e queridos irmãos diocesanos: na última edição do Jornal O Verbo, refletimos sobre as sete obras de misericórdia corporais. Vamos agora refletir sobre as sete obras de misericórdia espirituais, aprofundando o sentido de cada uma, a partir da Palavra de Deus (Antigo e Novo Testamento) e oferecendo alguns exemplos de sua aplicação em nossa vida, lembrando as pistas de ação que o próprio Papa Francisco nos oferece na Bula de Proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

  1. “Aconselhar os duvidosos”, isto é, dar bons conselhos: “Bendigo o Senhor que me aconselhou; mesmo de noite meu coração me instrui” (Sl 16[15],7). “Com toda a sabedoria, instruí-vos e aconselhai-vos uns aos outros” (Cl 3.16b). Concretamente: ajudamos a tirar os outros “da dúvida que faz cair no medo e muitas vezes é fonte de solidão” (n.15c)? Dar bons conselhos significa mergulhar na graça do Espírito Santo, a fim de perceber a presença de Deus nos fatos da vida, discernindo a sua santa vontade.
  1. “Ensinar os ignorantes”, isto é, esclarecer aqueles que não sabem: “Dá ao sábio, e ele será mais sábio; ensina o justo, e ele aumentará seu saber” (Pr 9,9). Jesus “ensinava como quem tem autoridade” (Mt 7,29). Concretamente: instruir não é simplesmente transmitir conhecimentos, muitas vezes abstratos, desligados da vida, mas sim, corrigir os que erram, ensinando-lhes, pelo testemunho, os valores do Evangelho. O Papa Francisco lembra que é preciso que sejamos “capazes de vencer a ignorância em que vivem milhões de pessoas, sobretudo as crianças desprovidas da ajuda necessária para se resgatarem da pobreza” (n. 15c).
  1. “Admoestar os pecadores”, isto é, corrigir os que erram: “Quando chegar até vós alguma causa de vossos irmãos, moradores em suas respectivas cidades, (…) então deveis adverti-los para não pecarem e assim não atraírem a ira do Senhor contra vós e vossos irmãos. Procedendo assim, não pecareis” (2Cr 19,10). “Se teu irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, tu e ele a sós! Se ele te ouvir, terás ganho o teu irmão” (Mt 18, 15). Concretamente: antes de qualquer julgamento e condenação do irmão, devemos corrigir na fraternidade e no amor aqueles que estão no erro para que mudem de vida, tendo um espírito sempre conciliador.
  1. “Consolar os aflitos”, isto é, ser solidário com a tristeza do próximo: “Consolai, consolai o meu povo!’, diz o vosso Deus” (Is 40,1). “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das misericórdias e Deus de toda consolação. Ele nos consola em todas as nossas aflições, para que, com a consolação que nós mesmos recebemos de Deus, possamos consolar os que se acham em toda e qualquer aflição” (2Cor1,3-4). Concretamente: consolar os tristes é ser presença afetuosa e solidária “junto de quem está sozinho e aflito” (n. 15c), aliviando o seu sofrimento.
  1. “Perdoar as ofensas”, isto é, superar as ofensas do próximo: “Perdoa ao próximo que te prejudicou: assim, quando orares, teus pecados serão perdoados” (Eclo 28,2). “E, quando estiverdes de pé para a oração, se tendes alguma coisa contra alguém, perdoai, para que vosso Pai que está nos céus também perdoe os vossos pecados. Pois se não perdoardes, tampouco vosso Pai que está nos céus vos perdoará os vossos pecados” (Mc 11,25-26). Concretamente: praticar o perdão renova completamente o relacionamento entre ofensor e ofendido. É preciso perdoar “de coração” (Mt 18,35), rejeitando “todas as formas de ressentimento e ódio que levam à violência” (n. 15c).
  1. “Suportar com paciência as injustiças”, isto é, ser paciente com as fraquezas do próximo: “É melhor quem tem paciência do que o arrogante” (Ecl 7,8). “Ora, não convém que o servo do Senhor viva discutindo, mas que seja manso para com todos, pronto para ensinar, paciente” (2Tm 2,24). Concretamente: saber ser amável com as fraquezas, falhas, limitações e misérias do próximo, “a exemplo de Deus que é tão paciente conosco” (n. 15c).
  1. “Rezar a Deus pelos vivos e pelos mortos”, isto é, orar por todos: “Mas, considerando que um ótimo dom da graça de Deus está reservado para os que adormecem piedosamente na morte, era santo e piedoso o seu modo de pensar. Eis por que mandou fazer o sacrifício expiatório pelos falecidos, a fim de que fossem absolvidos do seu pecado” (2Mc12,45). “Orai continuamente” (1Ts 5,17). Concretamente: “a oração (…) é o encontro entre a sede de Deus e a nossa. Deus tem sede de que nós tenhamos sede dele” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2560). É na oração que “confiamos ao Senhor os nossos irmãos e irmãs” (n. 15b), vivos e mortos. Nossos entes queridos merecem a lembrança e as orações dos seus amados, a fim de que alcancem o repouso eterno diante do Deus da Vida.

Queridas irmãs e queridos irmãos diocesanos: “Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai” (Misericordiae Vultus [“O rosto da misericórdia”], n. 1). “Também a nós que, outrora, vivíamos afastados e éramos inimigos, só pensando em obras más, agora, no tempo presente, ele nos reconciliou pelo corpo carnal do seu Filho, entregue à morte, a fim de que possamos comparecer diante d’Ele como santos, íntegros e irrepreensíveis” (cf. Cl 1,21-22). A Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus é o ato supremo do seu amor por nós, prova inigualável de sua misericórdia para conosco. Como nos exorta o Apóstolo Paulo, deixemos “as obras das trevas” e vivamos “as obras da luz” (cf. Ef 5,8-15) que vêm da Páscoa do Ressuscitado. As sete obras de misericórdia corporais e as sete obras de misericórdia espirituais indicam-nos caminhos concretos de como a luz da Páscoa pode brilhar para sempre em nossas vidas.

Feliz Páscoa a vocês e aos seus familiares.

E a todos abençoo.

Dom Vicente Costa
Bispo Diocesano

Fonte: dj.org.br